MUSEU ORSAY

CCJMB- Centro Cultural José Maria Barra

SOU PROFETA PRA...

1949


Quando pequeno, era também considerado o mais mal educado quando me perguntavam o que eu seria quando crescesse.
Todos tinham uma resposta, menos eu. E, eu não tinha a mínima idéia do que gostariade ser.
Uma tia minha, do Rio, que falava que nem “preto veio” de terreiro, uma vez me fez a pergunta: — E “voche”, o que vai “cher” quando “crecher”?
Resolvi fazer uma gracinha que tinha aprendido na escola: — Vou ser grande! —Respondi.
Levei uns cascudos da minha mãe que completou: — Vai ser grande e continuar bobo!
Em parte ela acertou.
Cresci, tenho 1,92m. Bobo nunca fui. Só não existia ainda uma resposta para aquela pergunta, naquele momento.
E naquele instante, eu estava certo. Tanto que minha irmã que dizia desejar ser pianista, tem hoje um supermercado. O meu irmão que sonhava ser músico é protético, o outro que queria ser dentista é teólogo e professor. São todos muito trabalhadores e bons no que fazem, mas erraram feio nas suas previsões.
Perguntei para um primo meu, certa vez, o que eu deveria responder nessas situações e ele disse: — Sei lá! Diz que quer ser Presidente da República.
Não gostei muito da idéia e preferi, segundo a minha mãe, continuar sendo bobo mesmo.
O que eu adorava de fato era construir arapucas, mas tinha que ser escondido da minha mãe. Ela detestava que eu fizesse isso. Aliás, ela detestava tanta coisa!
Ainda na adolescência, eu e um colega de escola, Aroldo, fazíamos arapucas juntos e escondido da mãe dele, que também não gostava que ele se enfiasse no mato, porque achava muito perigoso. Éramos bons nisso. Pegávamos de tudo, preás, ratos, diversos tipos de pássaros, e até galinhas.
Um dia, pegamos um tucano numa redinha que armamos. Foi o maior troféu que havíamos conseguido até aquele dia. Fizemos também, uma arapuca bem pequena e com melado pegamos uma barata. Esmagamos a barata, mas os pássaros e outros bichos nós soltávamos, inclusive o tucano. Era apenas o prazer de conseguir concluir a brincadeira. Afinal, o que iríamos fazer com ele? E o que iríamos explicar lá em casa? Meu colega deu a idéia de tirarmos o bico do bicho e esconder na pasta escolar, mas, quem teve a coragem de matá-lo? O tucano saiu ileso.
Um dia, meu tio Pedro, que eu gostava e confiava, me chamou para pescar na fazenda. Fomos a pé, já que a fazenda era bem perto da cidade em Birigui.
Para dizer a verdade eu gostaria mesmo é de armar umas arapucas por lá, mas a confiança que eu tinha no meu tio, não chegava a tanto. E se ele deixasse escapar para minha mãe? Eu pensava.
No caminho, após todos os assuntos esgotados, ele me fez aquela famosa pergunta: — E aí, já resolveu o que você vai ser quando crescer?
Pronto! Eu estava numa sinuca daquelas! Eu tinha que dar uma resposta boa para não ser mal educado. Foi aí que dei a profética e a mais acertada resposta da minha vida:
— Vou fazer arapucas.
Ele me pediu pra repetir.
— É tio, vou fazer arapucas!
Ele me olhou bem e perguntou: — E você vai viver do que? Veio então a outra profética resposta: — Vou viver de nada!
Acertei em cheio! Afinal, não é o que faço hoje, como artista?
Faço arapucas e vivo do nada!

2009

______________CIDMAR ESTEVES, UBERABA, FEVEREIRO, 2009

UM TEXTO

O AMBIENTE

O circo, o parque de diversões e o parquinho de uma praça ou da escola, sempre me deslumbraram. O lúdico, com seu formidável bom humor, me parece conveniente para ser usado como uma ponte por onde passam noções para aguçar a percepção das questões concernentes a todos os seres pensantes.
A arte sempre dependeu muito do estado de espírito do meio em que o artista esta integrado. “Se quisermos saber qual é o humor de um povo, basta olhar para arte que ele produz”. Se assim é, é também vital o exercício sistemático e intenso da observação sobre o meio.
O OBJETO

O objeto é o suporte que permite “encaixotar” a idéia. Uma arapuca que - por mais simples que seja na sua engenhosidade - aguça a curiosidade, enquanto que a idéia mostrada desnuda pode causar desinteresse.
Relações, medidas e encaixotadas, transitando através do invólucro para a percepção do humano.


O ENIGMA

Já o enigma a ser desvendado – ingrediente principal de que é feita a obra de arte - quer provocar no observador a confissão dos seus próprios segredos. “Isto é você. Você sabe que é assim”.



O TOM

Sei que incomoda muito descobrirmos que nem sempre o que somos é o que admitimos ou o que queremos ser. Por isto, optei por ser menos sisudo, ou seja, tender para o lado cômico, porque gosto de abordar questões comportamentais –coisa séria- de uma forma descontraída.
Como individuo pertencente a um povo alegre e descontraído não gostaria de produzir uma arte, que na sua forma de abordar fosse diferente desta alegria, desta descontração.
Prefiro um processo criativo que - acredito - facilita o diálogo entre o objeto de arte e o observador, na tarefa de cumprir a missão de disseminar experiências.
O esforço é para que o observador diante do objeto, não veja o artista. Que fiquem à vontade - observador e objeto - até que surja o tema como novo elemento e então até mesmo o objeto seja ignorado, ficando o indivíduo consigo mesmo num pensamento estreme, genuíno, puro, como num vácuo existente entre um conhecimento já adquirido e uma nova experiência.




O OBJETIVO


Estamos numa pinguela apertada, longa e que balança muito desde os tempos em que fomos artistas das cavernas de Altamira e Lascaux. Divertido ou não, vivemos registrando nossas aventuras; nossas ações nas ocupações, funções, condutas, desempenhos, etc. “Viver juntos” é necessário, mas “cada um na sua banda”, porque é sensato pensar que se ficarmos todos do mesmo lado, a pinguela pode virar.
Outro dia, ouvi a seguinte frase: “Na arte pode tudo, só não pode qualquer coisa”. Quem disse isso, por certo sabe que esse “tudo” tem que ser bem administrado, feito de substâncias bem dosadas, coerentes. Deve buscar um objetivo claro. Caso contrário, será como um besouro de pernas para cima que se movimenta muito, mas salvo aconteça algo extraordinário, irá morrer sem sair do lugar.



O RECORTE DE ALUMAS IMAGENS

Apesar de serem quase chapadas, quando as imagens são recortadas, sinto que posso, com o mínimo trabalho, provocar a sensualidade absorvida das antigas esculturas ou então nos pin-ups do pop dos anos 60. O apelo erótico presente nas figuras não é o meu principal objetivo, mas gosto.
Gosto de ser genealogia de artistas que vieram antes.



__________________________Cidmar Esteves, Uberaba, outubro, 2008.

RESISTIR







.