SOU PROFETA PRA...

1949


Quando pequeno, era também considerado o mais mal educado quando me perguntavam o que eu seria quando crescesse.
Todos tinham uma resposta, menos eu. E, eu não tinha a mínima idéia do que gostariade ser.
Uma tia minha, do Rio, que falava que nem “preto veio” de terreiro, uma vez me fez a pergunta: — E “voche”, o que vai “cher” quando “crecher”?
Resolvi fazer uma gracinha que tinha aprendido na escola: — Vou ser grande! —Respondi.
Levei uns cascudos da minha mãe que completou: — Vai ser grande e continuar bobo!
Em parte ela acertou.
Cresci, tenho 1,92m. Bobo nunca fui. Só não existia ainda uma resposta para aquela pergunta, naquele momento.
E naquele instante, eu estava certo. Tanto que minha irmã que dizia desejar ser pianista, tem hoje um supermercado. O meu irmão que sonhava ser músico é protético, o outro que queria ser dentista é teólogo e professor. São todos muito trabalhadores e bons no que fazem, mas erraram feio nas suas previsões.
Perguntei para um primo meu, certa vez, o que eu deveria responder nessas situações e ele disse: — Sei lá! Diz que quer ser Presidente da República.
Não gostei muito da idéia e preferi, segundo a minha mãe, continuar sendo bobo mesmo.
O que eu adorava de fato era construir arapucas, mas tinha que ser escondido da minha mãe. Ela detestava que eu fizesse isso. Aliás, ela detestava tanta coisa!
Ainda na adolescência, eu e um colega de escola, Aroldo, fazíamos arapucas juntos e escondido da mãe dele, que também não gostava que ele se enfiasse no mato, porque achava muito perigoso. Éramos bons nisso. Pegávamos de tudo, preás, ratos, diversos tipos de pássaros, e até galinhas.
Um dia, pegamos um tucano numa redinha que armamos. Foi o maior troféu que havíamos conseguido até aquele dia. Fizemos também, uma arapuca bem pequena e com melado pegamos uma barata. Esmagamos a barata, mas os pássaros e outros bichos nós soltávamos, inclusive o tucano. Era apenas o prazer de conseguir concluir a brincadeira. Afinal, o que iríamos fazer com ele? E o que iríamos explicar lá em casa? Meu colega deu a idéia de tirarmos o bico do bicho e esconder na pasta escolar, mas, quem teve a coragem de matá-lo? O tucano saiu ileso.
Um dia, meu tio Pedro, que eu gostava e confiava, me chamou para pescar na fazenda. Fomos a pé, já que a fazenda era bem perto da cidade em Birigui.
Para dizer a verdade eu gostaria mesmo é de armar umas arapucas por lá, mas a confiança que eu tinha no meu tio, não chegava a tanto. E se ele deixasse escapar para minha mãe? Eu pensava.
No caminho, após todos os assuntos esgotados, ele me fez aquela famosa pergunta: — E aí, já resolveu o que você vai ser quando crescer?
Pronto! Eu estava numa sinuca daquelas! Eu tinha que dar uma resposta boa para não ser mal educado. Foi aí que dei a profética e a mais acertada resposta da minha vida:
— Vou fazer arapucas.
Ele me pediu pra repetir.
— É tio, vou fazer arapucas!
Ele me olhou bem e perguntou: — E você vai viver do que? Veio então a outra profética resposta: — Vou viver de nada!
Acertei em cheio! Afinal, não é o que faço hoje, como artista?
Faço arapucas e vivo do nada!

2009

______________CIDMAR ESTEVES, UBERABA, FEVEREIRO, 2009